2005: Os Dois Corvos de Odin

 Lisboa, Zéfiro, 2005.

DA CONTRACAPA:

Pudesse a noite  nunca ser noite

e a alma brilhar sem limite.

***

Seremos livros velhos,

mas amados por Homens cultos.

UM POEMA DO LIVRO:

ROSTO ESQUECIDO

Não sei quem sou nem o que quero.

Se soubesse quem sou, quereria mais

e não teria limite no querer.

Existo no limiar do eu desconhecido.

Finjo o espírito e a razão oculta,

dizendo não existir incerteza na existência,

pois a porta do Oculto ficou fechada.

Finjo mais e digo que nada quero.

(Talvez quisesse ser Thor,

ter um poderoso martelo

e ferir os meus inimigos.

Talvez quisesse ser Loki,

pregar partidas e fazer

com que a cegueira matasse

o deus belo e invencível.

Talvez quisesse ser Balder

e ser eterno além

da luta entre o Bem e o mal.)

Mas ainda tenho de me aproximar do mar:

do espelho do mar; definir contornos,

os contornos que tenho na memória.

Porém, quando adormeço para despertar lúcido em tudo,

tenho uma máscara, e ela transforma-me.

A identidade, quem sabe?, ficou na praia,

talvez sobre a duna onde me deitei — quem sabe?

Mas, quando regresso à praia para a reaver,

perco-me na confusão das dunas silenciosas —

e o amor é como uma praia sem memórias.

Porém, no esquecimento de ter de nascer de novo,

o espírito é o mesmo no corpo mudado.

A morte há-de calar a matéria móvel,

mas jamais o desejo de se querer ser eterno:

de se ser mais além da memória…

Pudesse eu atingir a ponte Bilfrost!

FRANCLIM, Sérgio. Os Dois Corvos de Odin. Corroios, Zéfiro, 2005. pp. 20-21.

 

OUTRO POEMA DO LIVRO:

Pudesse a noite nunca ser noite

e a alma brilhar sem limite.

Pudesse a escuridão da amargura

não ter espaço em si nem em mim

e o meu olhar ser o sorriso

de uma criança que respira tranquila

para lá da prateada esfera das horas…

FRANCLIM, Sérgio. OS Dois Corvos de Odin. Corroios, Zéfiro, 2005. p. 25.

POSFÁCIO:

Odin — deus da Poesia, deus dos deuses na Mitologia Nórdica — foi o leit-motiv para se dedilhar impressões poéticas sob o dorso comum à memória e ao pensamento.

Na verdadeira Tradição ocidental, a Mitologia Nórdica é mais bela e mais profunda do que as Mitologias Grega e Romana. Mais bela porque está mais próxima da condição humana; mais profunda porque toca essa mesma condição de uma forma real e sentimentalmente perturbadora. A vida é nada perante o Fim que anuncia o ressurgimento de um tempo de bem e paz absolutos. O destino é, nisto, a grande matriz, contra a qual nem os deuses lutam: somente se preparam para o dia em que terão de morrer pelos Homens.

Os corvos de Odin, Munin e Hugin, que voavam pelo Mundo para lhe dar notícias deste, simbolizam aquilo que concretiza o esplendor e a decadência de cada vida humana: a capacidade de que o Homem tem em rememorar e pensar sob as cinzas das reminiscências. Munin (ou a Memória) e Hugin (ou o Pensamento) são dois corvos que perpetuam, num plano que não é atingido por qualquer um, a essência humana. Não têm um sentido agourento, conforme a Igreja Católica quis um dia crer, mas um sentido mágico e metafísico — iniciático aliás. Os dois corvos de Odin são o lado místico (por conseguinte, quase insondável) dos Homens.

Odin, segundo este Poeta, é o absoluto da Iniciação (morrer em consciência para se renascer para a “vida nova”). Por isto, invocá-lo, neste conjunto de poemas, tem a intenção de ter lado a lado o antigo âmago nórdico e a modernidade que procura o Norte — o Norte dos deuses que morreram pelos Homens.

Que este Poeta se cumpra na iniciação de Odin — o deus da Poesia: o deus das palavras sagradas, pelas quais cada ser suspira na noite da sua morte.

Para adquirir o livro: