2008: A República nunca existiu

Parede, Saída de Emergência, 2008.

ÍNDICE DOS CONTOS LIVRO A República nunca existiu:

Seis momentos em Tempo Real – João Aguiar

Missão 121908 – Luísa Marques da Silva

O Nome do Rei – Bruno Martins Soares

A Lombada do Moleskine – Luís Bettencourt Moniz

A Marcha sobre Lisboa – Octávio dos Santos

Primos de Além-Mar – Gerson Lodi-Ribeiro

D. Amélia – mini-peça em dois actos – Miguel Real

O Patriota Improvável – Maria de Menezes

Ao Serviço de sua Majestade – Luís Richheimer de Sequeira

Esparguete à Carbonária – Alexandre Vieira

A Noite das Marionetas – João Seixas

A Encenação – José Manuel Lopes

Rei sem Coroa – Sérgio Sousa-Rodrigues

A Rainha Adormecida – Cristina Flora

A introdução do livro por Octávio dos Santos

«A República Nunca Existiu!» é um livro que pretende assinalar principalmente o primeiro centenário do Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 – e, por arrastamento, e antecipação, o primeiro centenário da instauração da República em 5 de Outubro de 1910.

A ideia ocorreu-me após o Fórum Fantástico 2006, uma iniciativa da Associação Épica que já se tornou o grande encontro nacional anual de todos os amantes da literatura de ficção científica e fantástico. Entre outros motivos de interesse, a edição daquele ano contou com dois factores que foram decisivos para que este projecto tivesse início, ambos acontecidos no terceiro dia do encontro, a 18 de Novembro: a apresentação de «A Sombra Sobre Lisboa», uma colectânea de contos de vários autores, também editada pela Saída de Emergência, cujo «mote» era a elaboração de narrativas inspiradas pelo estilo de H. P. Lovecraft e que se desenrolassem na capital portuguesa; e a comunicação de Gerson Lodi-Ribeiro sobre o conceito/(sub)género de «história alternativa», uma corrente da FC & F que tem como pressuposto básico o imaginar-se como teria evoluído uma sociedade, um país, enfim, uma parte do mundo «real», se determinado momento histórico não tivesse acontecido ou se o desenlace fosse diferente daquele que efectivamente ocorreu – aquele autor e conferencista brasileiro alertou para o facto de haver pouca produção literária, tanto em Portugal como na nação irmã, no âmbito da «história alternativa».

O terceiro factor decisivo do «triângulo de inspiração» para que este projecto se concretizasse resultou do facto de eu ser membro da Real Associação de Lisboa e de, nessa qualidade, então estar a reflectir desde há algum tempo sobre formas, de preferência inovadoras e com impacto, de contrabalançar, de combater as «comemorações», oficiais, dos 100 anos da República que estavam, e estão, em preparação. Ainda em 2006, contactei Ricardo d’Abranches, Presidente da Direcção da RAL, a quem propus a criação de uma «contra-comissão» para as comemorações da República. Sensatamente, respondeu-me que a Associação tinha estabelecido como primeira e principal prioridade a evocação condigna de outra tragédia, ocorrida dois anos antes.

Assim, a conclusão deste processo foi lógica e inevitável: um livro, uma obra de ficção, colectiva, que fosse lançada aquando do centenário do assassinato do Rei D. Carlos e do Príncipe D. Luís Filipe, e em que todas as partes (todos os contos) respeitassem os dois seguintes princípios fundamentais: o Regicídio de 1 de Fevereiro, tal como o conhecemos, não aconteceu; e a República nunca foi instaurada em Portugal, nem em 5 de Outubro de 1910 nem depois. Pareceu-me óbvio contactar a Saída de Emergência e propor-lhe este projecto – o Luís Corte Real, imediata e entusiasticamente, aceitou.

Porém, «A República Nunca Existiu!» não é a minha primeira experiência no campo da história alternativa… ou de algo aproximado. Em 2005, e de propósito para coincidir com o 250º aniversário do Terramoto de Lisboa, acabei de escrever um livro a que dei o título de «Espíritos das Luzes» (que, no momento em que escrevo, ainda não está editado) e que «mistura» o ambiente do Portugal setecentista com um cenário de ficção científica. É um trabalho híbrido, parte ficção – o contexto e o enredo que eu criei – e parte realidade – as palavras que personagens verdadeiras, figuras históricas, disseram, escreveram há mais de dois séculos. E para todas essas individualidades poderem coexistir e interagir tive de imaginar um «universo paralelo», um outro tempo e um outro espaço em que (uma outra) Lisboa é a capital… de um planeta/país chamado Portugal.

No ano seguinte, e sem adivinhar o que um evento denominado Fórum Fantástico, que se realizaria no Outono, me iria proporcionar, li durante o Verão dois livros que – coincidência? destino? – me iriam predispor ainda mais para as potencialidades da «realidade (ou história) alternativa»: «Roma Eterna», de Robert Silverberg; e «A Invenção de Leonardo» («Pasquale’s Angel», no original), de Paul J. McAuley, este também editado pela Saída de Emergência. Cada um com uma pergunta-chave a acompanhá-lo: «como seria o Mundo se o Império Romano nunca tivesse terminado?»; «e se todas as invenções de Da Vinci funcionassem realmente?» Se no primeiro se imagina toda a Terra «romanizada» até à… «actualidade», e em que a famosa «queda do império» nunca aconteceu, no segundo imagina-se uma Florença transformada por uma revolução industrial (muito) precoce, 300 anos antes do «normal» – porque um certo génio abdicou da arte para se dedicar inteiramente à ciência e à técnica. Em ambos a mesma dúvida fundamental, apesar de implícita, se coloca: seriam as nossas vidas melhores ou piores se a humanidade tivesse seguido esses – ou outros – rumos?

Apesar de, na «realidade paralela» construída em «A República Nunca Existiu!», a Monarquia ter prevalecido, sempre esteve para mim fora de causa impor aos outros escritores que convidei – a todos eles muito, muito, muito obrigado! – um «terceiro princípio fundamental»: Portugal seria indubitavelmente um país melhor se tivesse continuado a ser um Reino e se não se tornasse numa República. Eu acredito nisso (e o meu conto reflecte essa crença), mas, aqui, daria, e dou, mais importância à liberdade artística do que à (minha) militância monárquica. No entanto, essa eventual imposição nem seria necessária: naturalmente, essa certeza, talvez inconsciente, latente, prevaleceu; no pior dos cenários (alternativos), o nosso país não ficaria pior do que na realidade foi.

Aliás, dos 14 autores participantes, (só) três são, precisamente, «monárquicos militantes»: João Aguiar, Luís Richheimer de Sequeira e eu. E, já agora, será também interessante referir que, dos 14: (só) três são mulheres – poucas, é verdade, mas excelentes; só um não é português – Gerson Lodi-Ribeiro, afinal o «responsável moral» por esta aventura, não iria, obviamente, ficar de fora; dois fazem neste livro a sua estreia literária – Alexandre Vieira e Luís Bettencourt Moniz. Várias outras ligações poderiam igualmente ser estabelecidas entre nós. Exemplos: há professores, jornalistas, advogados; há os que trabalham na área dos computadores, informática, tecnologias da informação e comunicação; os que integra(ra)m associações e/ou colecções literárias nos domínios da ficção científica e do fantástico; enfim, os que nasceram em Lisboa – todos excepto quatro, ou seja, dez! Tudo isto pode servir para salientar tanto o que nos diferencia como o que nos aproxima. E, aqui, todos concordámos que o tema deste livro é interessante, original, relevante; todos lançámos mãos à obra com dedicação e mesmo paixão…

… E talvez, admito, também com alguma melancolia. Pelo menos no meu caso. No Verão de 2007, durante as férias com a minha família, estive em Vila Viçosa, bela terra à qual não regressava há 20 anos. Revisitei o Paço Ducal e quase consegui sentir a «presença» de D. Carlos e da sua família. Visitei a antiga estação ferroviária, agora um Museu do Mármore, e quase consegui «ver» a Família Real entrar num comboio para a sua última viagem juntos. Aclamados por uma pequena multidão onde, quem sabe, estaria uma ainda muito jovem Florbela Espanca…

Para adquirir o livro:

www.saidadeemergencia.com